Área industrial contaminada vira espaço para garimpo urbano de ferro em Taubaté, SP

0
4119

Uma área abandonada que pertenceu à Ford se transformou em um garimpo de ferro em Taubaté (SP). Há ao menos dois meses pessoas passam o dia escavando o local em busca de restos de peças para serem vendidas em um ferro velho a centavos.

A Companhia de Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) alerta que a área é contaminada por uma substância que pode causar desde reações na pele e até câncer em caso de exposição (leia mais abaixo).

A área fica anexa ao terreno da fábrica de motores, desativada após a saída da empresa do Brasil, onde antes funcionava o setor de fundição e um posto de combustíveis.

De acordo com o órgão, desde 2002 eles classificaram como contaminado o espaço e acompanhavam ações no local com a Ford. Atualmente o local tem outro dono (leia mais abaixo).

Com o garimpo urbano a Cetesb descobriu novos aterros e áreas contaminadas. As escavações acontecem pelo menos desde abril.

Garimpo urbano

O terreno, apesar de contaminado pela montadora, não pertence mais a ela, mas a um grupo de quatro empresas. Segundo o G1 apurou, uma delas teria começado a retirar tubos de ferro subterrâneos e a movimentação chamou a atenção de moradores do entorno, que passaram a garimpar uma das áreas que pertence a uma construtora.

A área já tem sido conhecida de forma popular como ‘garimpo de Taubaté’, com imagens sobre a extração de ferro compartilhadas na internet.

Em uma visita da reportagem ao local, havia dezenas de pessoas escavando, algumas famílias inteiras, incluindo crianças. Uma mulher, que não quis se identificar, contou que passa o dia garimpando na área e os materiais recolhidos depois são vendidos em um ferro velho próximo ao local por R$ 0,16 o quilo.

Em uma conversa, uma das pessoas contou que o material recolhido causa coceira instantânea nas mãos. A área tem, atualmente, diversos buracos de escavação, alguns deles com mais de um metro de profundidade.

Contaminação

De acordo com a Cetesb, o local tem areia de fundição, resíduos de ferro e compostos de combustíveis, como benzeno, tolueno e xileno. Esse último composto, conhecido como BTX, pode causar intoxicações e doenças crônicas, como o câncer. O nível de gravidade depende da quantidade do material concentrada no solo.

Como a escavação identificou uma nova área de aterro desse material, o órgão informou que ainda não é possível saber a quantidade a que as pessoas estão se expondo durante a atividade. O que aumenta o risco a que os ‘garimpeiros’ estão expostos.

Andreza Portella, doutora em química analítica ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) explica os riscos para quem se propõe a garimpar no local.

“O BTX é a questão mais problemática. Esses compostos podem trazer doenças preocupantes. Há sintomas de curto prazo, como coceira, dermatites e náusea. Até longo prazo, como problemas neurológicos e câncer. A escavação está sem limite e não sabemos a quantidade. É um problema muito grave”, comentou.

Entraves

A Ford tem duas áreas sendo acompanhadas pela Cetesb por contaminação, uma na planta de Taubaté e outra na de São Bernardo do Campo. Outras duas áreas também foram contaminadas em processo de produção da empresa, na região do Alto Tietê, na capital, mas já foram reabilitadas.

Segundo a Cetesb, a empresa foi acionada em 2002 sobre o caso de Taubaté quando a área foi classificada como contaminada. O processo foi aberto e a Ford chegou a fazer a remediação da área, com remoção de toneladas de areia de fundição. Depois disso, pediu para o órgão o encerramento da gestão da área, mas o pedido não foi aceito.

Em nota, a Companhia informou que foi solicitado à Ford a cubagem deste material para quantificar o resíduo e as ações a serem adotadas. Foi acionada ainda a prefeitura de Taubaté e as empresas donas da área para impedir o acesso dos populares.

O que dizem prefeitura e atual dona da área

A Prefeitura de Taubaté informou que notificou a Polícia Militar Ambiental em abril. Disse ainda que há dez dias a Secretaria de Serviços Públicos fiscalizou a área e constatou irregularidades, como fechamento com muro ou cerca, calçamento, poda de mato e notificou a empresa para adoção de medidas. De acordo com a gestão, o prazo é de um mês para a adequação que, se não for cumprida, pode resultar em multa.

A gestão ainda reforçou que, neste caso, o valor da multa é dobrado porque a notificação é recorrente. Entre 2019 e 2020 os proprietários receberam dez notificações pedindo as adequações.

A reportagem procurou a Pinese Vieira, proprietária do local, que registrou um boletim na Polícia Civil pedindo medidas pela invasão na área e garimpo. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) disse que o boletim foi registrado na sexta-feira (25), um dia depois que a empresa foi procurada pelo G1.

A reportagem também acionou a Ford sobre as medidas sobre a contaminação e os riscos, mas não obteve retorno até a publicação.

Fonte: G1 / Foto: Laurene Santos/TV Vanguarda